quarta-feira, 24 de outubro de 2007

2058

Moacir Brandão

Um senhor de cabelos prateados
está sentado
numa daquelas canoas velhas
da praia do Preá
Imagina as gaivotas que nunca voaram
nessa praia
Nem albatrozes


Uma garrafa de vinho na mão
um vinho bom e barato
Os olhos miúdos
Miram firme para o horizonte

Ele anda com os passos já cansados
Enfrentando as ondas do velho amigo
Ele pára, mais um gole
Água até os joelhos
Assim eles conversaram uma vida inteira

Parece olhar para o passado
e perguntar:
"Valeu à pena?"

O velho amigo, em seu murmúrio marítimo, diz:
"Só tu tens essa resposta, pescador"

O senhor de cabelos prateados
derrama o vinho sobre a sobrancelhas ainda negras:
"ABBA,
Foi uma divertida loucura!!"

...

domingo, 17 de junho de 2007

A última pequena rosa do Éden

Pequena rosa
Acostumada ao vermelho
Pequena rosa anda por Bagdá
Perdendo suas pétalas
No que já foi o Paraíso
Em busca, talvez, de algum sonho
Jogado em escombros

Pequena rosa
Os Senhores da Guerra nem te olham
Destroem sonhos que nunca nasceram
Transformados em tons de cinza

Pequena rosa
Que nem pode mostrar os espinhos
Terá tempo para o doce orvalho?
Que será de seu perfume?
Perdido num falso jardim
Quem plantou dá um nome

Democracia

Aprendes como fel
Um espinho em tua língua
Que nem a água do Eufrates adoça
Nem o tempo cicatriza

Pequena rosa e última,
Que nome darás para esse jardim?


(writed in 03-12-2007)

sexta-feira, 8 de junho de 2007

A estética do mundo


Olhe-se no espelho
Preocupações com o cabelo
a melhor calça
As cores estão combinando?
Não sei dançar
Festas
O som alto do carro
Daqueles que dizem
"Odeio política"
Violência, trabalho escravo, fome, pobreza
Para muitos
"Um saco"
Mas fazem o sinal de paz numa festa rave
O mundo é um parque
Não é
Não é
Não é
A estética do mundo
Não passa de uma piada grotesca
Nosso Teatro de Vampiros
Palco da miséria
Sem graça

O Poeta Prateado está de luto

terça-feira, 1 de maio de 2007

Adões e Evas

Moacir Brandão

Quem eu sou
ou que somos
Que importa?

Se no Gênesis
Ele continua a perguntar
"Onde estás?"

Adões e Evas
Demasiados somos
Pelo favor que nos fizeram
Os amáveis pecadores

Um mar de variações
sobre o mesmo tema
A própria água
de nosso afogamento

Um céu
de vertigens resplandecentes
Na cegueira
de nosso humor incandescente

Uma mata
de ruídos urbanos
Um cidade
de loucuras saltitantes

Palhaços
de uma piada mortal
Morcegos
da caverna de Platão

Tudo isso podemos ser
Sem sermos nada
Porque é o que somos
Enquanto o trem pras estrelas...
Não chega...

Pois já perdemos nossa arca

terça-feira, 10 de abril de 2007

Só os cegos podem ver

Eu rabisco
minha sorte
risco minhas palavras sem sentido

Miro o olhar no escuro
espelho
cego que estou

Sem notas de violão
cacos de telha
fazem a batucada

batucam
sacodem
batucam
sacodem

Perdido num clarão
encontro no chão
frio
meu coração vagabundo

Por isso corro demais


quarta-feira, 4 de abril de 2007

Tarde transeunte

Luz
olhos fatigados
pela vigília

A tarde vai embora
sem os centavos
dos esquecidos

Os últimos minutos
das brincadeiras infantis
no velho parque
dos perdidos

As esferas aparecem
para adorar a luz
de uma tarde surreal
que vai embora

quarta-feira, 28 de março de 2007

Sombra de cajueiro

Um céu de loucura
Sertanejo levanta o braço
Magro
A foice corta o galho
O suor escorre pela face
Salgado
A camisa xadrez encharcada
Cobra aparece
Cansaço, calor
Susto
Um passo atrás
Um toco
A queda
A foice escapa
Desce...
A cabeça na cabaça
Urubu voa
Sombra de cajueiro

O prateado

Foi nas águas de março
De um março prateado
O poeta nasceu
A Lua apareceu tímida
Assustada
Viu o andarilho trazer a tempestade
Mudá-la em lágrimas que apagariam

O Sol

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Dama Leviana


Dama em vidro

De beijos maculadores

Pra que falar

Dessa eterna busca

Pra que entender

Esse encontro de plebeu e rainha

Um beijo infiel

Esse suor que desce

Com o teu cheiro simples

Paixão ardente

De quem joga o carteado

Sem medo de perder

As ilusões profanas

Essa garganta rasgada

Por teus goles

Eu digo alô

Falo para que entendas

Essa turva sensação

Frisson perfeito

Nos veremos por aí

Alquimia da feiúra em beleza

Não somos sapos ou príncipes

Poetas prateados

No meio da rua

Sob teu doce balanço

Cantando pra Lua

Tua rival em noites invernais

Quando a memória

Amarga amores passados

Desorientando os passos

A mão agarra o poste

Paralelepípedos se aproximam

Se afastam

Melhor voltar pra mesa

Vidro sem dama

Aos cacos, todos nós!

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

O mundo azul

O mundo azul
está morrendo

O mundo azul
destruído pelos seus filhos

O mundo azul
está ficando cinza

O mundo azul
sem nuvens brancas

Um mundo azul
uma lembrança